Tintin: um apaixonado pela Ciência

Publié le par Zetantan

Vale a pena revisitar os seus álbuns e observar as inúmeras referências à Ciência e à Técnica do século XX

 Este texto de Nuno Crato foi publicado em 8 de Março de 2003 - há seis anos, portanto - na data de aniversário da morte de Hergé. Com autorização de Nuno Crato e da direcção do Expresso, Ciência Hoje volta a publicá-lo no dia em que Tintin faz 80 anos

A fórmula mágica do sucesso de Tintin foi resumida pelo seu criador em poucas palavras: os álbuns destinavam-se a «todos os jovens dos sete aos setenta e sete». E Hergé conseguiu entusiasmar os jovens com um conjunto de caracteres curiosos em viagens aventurosas. Conseguiu também despertar o interesse dos adultos, com a perfeição dos seus desenhos, com a reprodução realista de vestimentas, locais, barcos e aviões e com os paralelismos que estabeleceu com situações reais.

Um dos aspectos mais interessantes dos álbuns de Tintin é o rigor com que são desenhados. Hergé coligiu arquivos fotográficos imensos. Coleccionou catálogos de aviões e máquinas. Fez maquetas de foguetões e edifícios, para melhor desenhar os seus quadradinhos. Em muitos casos, acompanhou ou antecipou os progressos científicos do século. Ler a ciência nas aventuras de Tintin é um passatempo apaixonante. O leitor mais interessado pode reportar-se ao suplemento «Tintin chez les savants», da revista «Science et Vie», ou a «Tintin: The Complete Companion», de Michael Farr. Mas o melhor mesmo é reler as aventuras do jovem repórter.

As invenções do século

«Tintin em África» (1931) é o primeiro álbum de Hergé a obter um sucesso alargado. Aí aparecem várias invenções na altura ainda pouco difundidas, como a câmara de filmar portátil e uma espécie de cinema falado apoiado num fonógrafo — o primeiro filme sonoro tinha aparecido quatro anos antes. Pouco depois, na «Ilha Negra», de 1938, Tintin descobre um aparelho de televisão numa ilha da Escócia — Londres tinha iniciado as primeiras emissões apenas dois anos antes e, para a maioria dos leitores da época, tratava-se de um aparelho desconhecido. Mais tarde, no «Tesouro de Rackam o Terrível» de 1944, aparece um submarino portátil, veículo desconhecido na época, apesar de se terem inventado submarinos há muitos anos e de eles estarem muito difundidos por altura da Grande Guerra. Auguste Picard, o inventor que inspirou a personagem de Tournesol, construiria o primeiro Batiscafo apenas em 1948. Mas a grande exploração da ciência e tecnologia seria feita nos álbuns da viagem de Tintin à Lua, de 1953 e 1954. O Radar que segue a viagem está magnificamente desenhado — a invenção data de 1935. E o reactor nuclear é de um grande realismo. É muito maior que o primeiro a ser construído, que entrou em funcionamento nos Estados Unidos em 1942, e é parecido com o construído na Bélgica, em Mol, por altura da concepção das aventuras de Tintin, mas que só entraria em funcionamento uns anos mais tarde, em 1956. Poucos anos depois, no álbum «Tintin no Tibete» de 1960, o capitão Haddock defronta-se com um transístor, uma invenção de 1948, mas que só nos fins dos anos 50 e princípios dos 60 começaria a ser comercializada em pequenos receptores.


Na Lua

 A viagem de Tintin à Lua é um dos grandes feitos de Hergé. Hergé aconselhou-se junto de vários cientistas, entre os quais o professor Alexandre Ananoff, autor de uma conhecida obra de astronáutica editada em francês pela Fayard. Ao contrário das verdadeiras viagens tripuladas à Lua, que se realizariam 15 anos depois, o foguetão de Tournesol é movido a energia nuclear, pelo que tinha uma reserva energética imensa, que lhe dava a possibilidade de pousar sobre o nosso satélite e de vencer depois a atracção lunar. Como se sabe, apenas o módulo lunar americano pousou sobre a Lua, enquanto a nave principal se mantinha em órbita para aproveitar o combustível. O foguetão de Tintin é inspirado no V-2 alemão de von Braun. Entre outros pormenores realistas relatados na viagem, destaca-se a ausência de peso sentida pelos astronautas quando o motor pára, assim como o desenho do asteróide Adonis. De notar que, na altura, nunca se tinha visualizado um asteróide. Pelas imagens hoje conhecidas vê-se que o desenho é bastante realista. Menos realista é a ausência de movimento relativo entre o foguete e o asteróide. Enquanto este se mantém numa órbita que cruza a da Terra, a inércia do movimento da nave deveria afastá-la do asteróide. 


Os sábios


Os sábios de Tintin correspondem a uma visão romântica dos homens de ciência. Tournesol não trabalha em nenhuma universidade nem centro de investigação. Tem um laboratório em casa e é auto-suficiente, o que já não fazia sentido em pleno século XX. É um cientista de múltiplas habilidades. Inventa submarinos individuais, máquinas de escovar roupa, aparelhos de produzir água gaseificada, armas de ultra-sons, foguetes espaciais e patins a motor. Dedica-se à botânica, à física nuclear e a múltiplas outras disciplinas. Os cientistas do século XX não podiam já dispersar-se em tantas actividades.

Os cientistas de Tintin são pessoas distraídas que ignoram a realidade prosaica da vida. O astrónomo principal da «Estrela Misteriosa» está contente por ser o primeiro a prever o fim do mundo. Diz que depois do cataclismo será famoso... Tintin é submergido pelos cálculos de que ousa duvidar. 

No mesmo álbum, a expedição ao meteorito que caiu sobre o Árctico é financiada por um Fundo Europeu de Investigação Científica. Só décadas mais tarde foram criadas estruturas europeias com objectivos semelhantes. Na «Estrela Misteriosa», descreve-se uma expedição de cientistas de várias universidades europeias que vão procurar o meteorito. Entre eles vê-se «Pedro João dos Santos, um conhecido físico da Universidade de Coimbra». É a personagem no centro da cena de «Vitória!!», careca e de bigode escuro.


Os fenómenos naturais


Hergé explorou várias vezes fenómenos naturais relativamente raros e certamente nunca observados pela maioria dos seus leitores, daí o maior poder sedutor das cenas. Entre esses fenómenos surgem as miragens, provocadas pela reflexão da luz junto do solo quente dos desertos, onde o ar está mais aquecido. Essa reflexão é apenas o resultado da refracção da luz, que muda progressivamente de direcção ao atravessar camadas sucessivamente mais quentes de ar. Como consequência, o solo parece um espelho que reflecte o céu, daí a ilusão de um lençol de água, a que a mente ansiosa do viajante acrescenta umas palmeiras e uma visão de oásis.

O fogo-de-santelmo — no dizer de Camões «o lume vivo que a marítima gente tem por santo» (Lusíadas, V, 18) — aparece no «Tintin no Tibete». Tintin explica ao capitão Haddock tratar-se de um fenómeno meteorológico. Com efeito, o fenómeno consiste numa descarga eléctrica observada em torno de mastros de navios ou de outros objectos pontiagudos quando a atmosfera está carregada de electricidade estática, como acontece nas tempestades. Nessas condições, cria-se um campo eléctrico muito forte em torno do objecto saliente e produz-se uma descarga. Os electrões dos átomos da atmosfera circundante são arrancados das suas órbitas e regressam ao seu estado normal emitindo luz.

Nas aventuras de Tintin, Hergé também se engana. É o caso do arco-íris que aparece nas «Sete Bolas de Cristal». Aí, curiosamente, o autor desenha erradamente a sequência de cores. De fora aparecem o violeta e o azul e, no interior, o laranja e o vermelho. Na realidade, os arco-íris apresentam as cores em ordem inversa. Com efeito, o fenómeno deriva da desigual refracção das diversas componentes da luz do Sol nas gotículas de água das nuvens.

A luz com menor comprimento de onda (azul) é mais refractada; a de maior comprimento de onda (vermelho) é menos. Porque se terá Hergé enganado? Pode ser que o ilustrador se tenha inspirado em desenhos ou fotografias de um arco-íris duplo — nesse caso, raro, aparece um segundo arco colorido, exterior e concêntrico com o principal, com as cores invertidas. Mas no desenho aparece apenas um arco-íris simples, pelo que o erro é claro.

Os fenómenos naturais descritos por Hergé não ficariam completos sem um espectacular eclipse solar, que aparece em «Templo do Sol». É uma das cenas mais curiosas das aventuras de Tintin. Sabendo da previsão de um eclipse total, o nosso herói finge ter poderes de comandar o céu e apagar o astro-rei. Os desenhos mostram com grande realismo as diversas fases da ocultação da nossa estrela pela Lua e o efeito de pavor provocado nos Incas. A cena terá sido inspirada num episódio verídico passado com Cristóvão Colombo ou em episódios semelhantes, reais ou inventados, que abundam na literatura de viagens aventurosas. É uma das cenas inesquecíveis das aventuras de Tintin.

http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=28939&op=all

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