Tintim e a Roménia

Publié le par Zetantan

São três os álbuns do TintinO Ceptro de Ottokar», «Objectivo Lua» e «O Caso Girassol»)que nos remetem para um país imaginário criado por Hergé: a Sildávia, com a sua geografia, história, hábitos e tradições a serem descritas com tal pormenor, que, por vezes, os leitores sentem a presença de um país real. Em 1938, houve uma Exposição Internacional, e, certamente, Hergé visitou o stand da Roménia, donde retirou todas as informações que achou necessárias para fazer nascer um dos países fictícios mais célebres da banda desenhada.

Dodo Nita, romeno, nascido em Craiova, sócio da Associação «Amigos de Hergé» é convicto na sua afirmação de que a Sildávia é a Roménia. Dodo apresenta cinco argumentos que sustentam a sua convicção:

  1. Argumento toponímico: A Roména era composta aquando da criação d' «O Ceptro de Ottokar» por várias províncias, entre as quais a Transilvânia e a Moldávia. Hoje a Moldávia é um país independente (porém parte da região da Moldávia continua a ser romena), enquanto a Transilvânia continua a fazer parte da Roménia, abrangendo o centro-oeste da Roménia. As sílabas sil e dávia deram origem ao nome ao país fictício de Hergé: Sildávia.
  2. Argumento ornitológico: A Sildávia é o «Reino do Pelicano Negro». Como se sabe, não existem pelicanos negros. Contudo, a Roménia é o único país europeu que acolhe pelicanos selvagens, no delta do Danúbio.
  3. Argumento histórico: No episódio «O Ceptro de Ottokar», Tintin enfrenta a «Guarda de Aço», uma organização de extrema-direita. Com efeito, a Roménia, desde o ano de 1927, possuía uma organização nacionalista, facista e anti-semita intitulada «Guarda de Ferro». Por outro lado, no mesmo episódio, o partido de extrema-esquerda «Zildav Zentral Revolutionar Komitzat» pretende aniquilar a monarquia na Sildávia, anexando o país à Bordúria (outro país fictício vizinho da Sildávia e dirigido pelo totalistarismo do marechal Plelszy-Glatz, que pela fisionomia nos faz lembrar Estaline). Todo este enredo tem imensas parecenças históricas com o que se passou, na época, na Roménia. Com efeito, o pacto Ribbentrop-Molotov, ministros dos negócios estrangeiros da Alemanha e da União Soviética, obrigava a Roménia a ceder a Bessarábia (2/3 da parte moldava romena, que mais tarde virá a dar origem ao país independente moldavo) aos russos. Anos mais tarde e já após a 2ª Grande Guerra, a Roménia, abandonada pelos ocidentais à influência russa, vê o seu rei Miguel I abdicar. E já agora, não é nenhuma coincidência os membros do Komitzar, cidadãos bordúrios, terem os seus nomes em russo.
  4. O testemunho do Capitão Haddock: Os impropérios do Capitão dão-nos bons indícios sobre a localização geográfica da Bordúria. Com efeito, «papuas dos Cárpatos» e «cretinos dos Balcãs» são referências que nos levam à região da Roménia.
  5. Argumento geográfico: a brochura que Tintin lê no avião que o leva à Sildávia (prancha 19) oferece-nos argumentos que fundamentam a convicção que a Sildávia é a Roménia. Diz a brochura que a «Sildávia é um pequeno país da Europa Oriental formado por dois grandes vales: o do rio Wladir (o Danúbio é o único rio da região e é na Roménia que tem o seu maior leito) e do seu afluente Moltus (o rio Prout desenha a fronteira com a União Soviética), os quais se reúnem em Klow, a capital com 122.000 habitantes (na época, a cidade de Galati onde se juntam os rios Danúbio e Prout tinha, aproximadamente, o mesmo número de habitantes). (...) Numerosas fontes termais e sulfurosas brotam do solo (a Roménia tem 33% das fontes de água mineral da Europa e possui 140 estâncias termais).»

Agradeço ao Francisco Sousa pela oferta de um exemplar do Dodo Nita

Publié dans Descoberta de Tintim

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