Superar um pai difícil

Publié le par Zetantan

A revista Mais do Diário de Notícias da Madeira publicou na edição de 29 de Agosto de 2010 um artigo de  Jorge Freitas Sousa sobre o «pai» de Tintin.

 

Hergé, criador de 'Tintim', teve ligações ao nazismo e manteve tiques racistas nas histórias.

Falar de Hergé, pseudónimo de Georges Prosper Remi, enquanto autor consagrado de banda desenhada, obriga a esquecer todo o seu passado de ligações e simpatias nazis e fascistas e até ignorar o conteúdo ideológico de muitos dos seus trabalhos. O que fica é um desenho cuidado e a criação de um dos personagens mais famosos de sempre e que influenciou dezenas de autores, sobretudo franco-belgas: Tintim, um jovem jornalista que nunca escreve uma notícia e corre mundo (até vai à Lua) vivendo todo o tipo de aventuras,  acompanhado pelo cão Milú, o capitão Hadock, lobo-do-mar sem navio, o professor Tornesol (Girassol), meio maluco, meio génio e seguido de perto pela dupla de detectives Dupont e Dupond.

Tintim - a versão portuguesa varia entre 'Tintin' e 'Tintim' .... - ficou no imaginário de gerações, desde que foi criado em 1929, quando Hergé tinha, apenas, 22 anos.

Nascido a 22 de Maio de 1907, em Etterbeck, na Bélgica, o 'pai' de Tintim foi um desenhador precoce que chegou a ser considerado uma versão europeia do norte-americano Walt Disney, embora o seu trabalho seja completamente diferente.

Ao longo de uma longa carreira, que só terminou quando morreu, em 1983, criou diversos personagens, promoveu o lançamento de revistas de banda desenhada, mas foi com Tintim que o seu nome entrou para o grupo restrito de autores de dimensão mundial.

O jovem repórter-detective protagoniza dezenas de aventuras, publicadas em álbuns, revistas e até em versão de animação para cinema e televisão e conhece outros personagens, das mais variadas nacionalidades. Hergé garantia que os seus 'bonecos' eram baseados em pessoas que conhecer ao longo da vida. No meio de uma longa lista de personagens secundários da série, surge um português, Oliveira de Figueira, um comerciante que aparece em vários episódios.

A caracterização dessas personagens 'locais' é a razão de Hergé ter sido acusado de racismo e anti-semitismo. Os africanos, como acontece em 'Tintim no Congo', são ridicularizados, os judeus são sempre ladrões e há claras simpatias por regimes de 'democracia musculada'.

Durante a II Guerra Mundial, com o país ocupado pelos alemães, Hergé foi dado como próximo do líder nazi belga León Degrelle, embora não se tenham encontrado registos da sua filiação na organização.

Só em 1956, com a publicação de 'O Caso Girassol', um aventura de Tintim vivida numa república fictícia, dirigida por um ditador que é mistura de Hitler com Mussolini, o autor, através de um trabalho que condena os regimes totalitários, consegue atenuar as críticas.

Independentemente desse passado cinzento do seu autor, 'Tintim' é um marco na BD, tanto pelas aventuras que protagonizou, como pela revista com o seu nome - com publicação em dezenas de países - que ajudou a lançar muitos dos autores europeus do século XX.

Publié dans Tintim em Portugal

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